10 agosto 2017

Resenha: A Cidade Murada

Título: A Cidade Murada
Autora: Ryan Graudin
Editora: Seguinte
Gênero: Ficção
Ano: 2015
Páginas: 396
Skoob

Antes de escolher este livro para ler eu li umas quatro ou cinco resenhas sobre ele, e uma frase de uma delas - do Lucas, no Skoob - e chamou a atenção: "A Cidade Murada é, definitivamente, um livro que não tem o hype que merece.". Fiquei com isso na cabeça, e confesso que tal frase foi o que me fez bater o martelo e escolher esta obra. Adoro livros que não estão no hype, afinal, quase sempre tenho boas surpresas (Imperfeitos que o diga!). E ele realmente não me decepcionou, pelo contrário. Ele já me ganhou nas primeiras páginas.

A Cidade Murada conta a história de Jin Ling, uma garota que vivia no campo e sofria com os constantes maus tratos de seu pai. Todo esse sofrimento fez dela uma garota forte e destemida, e tais qualidades foram decisivas para mantê-la viva em Hak Nam, uma cidade murada onde a lei do mais forte prevalece, onde um traficante em especial comanda tudo e todos, até mesmo os pequenos marginais.

Você deve estar se perguntando o que a levou a um lugar tão obscuro e perigoso, né. Bem. Acontece que seu pai, em uma de suas bebedeiras, acabou vendendo sua irmã mais velha, Mei Yee. Jin Ling seguiu seu rastro até a cidade murada, e agora, luta para sobreviver e para encontrar sua irmã perdida. Ela sabe que ela foi vendida para um prostíbulo, e desde sua chegada, vivendo pelas ruas como um menino, a garota tem feito de tudo para entrar em todos os bordéis da cidade. Há apenas um em que ela não entrou. Ele é administrado por Longwai, o dono da cidade, o dono da Irmandade, dono dos Ceifadores (caras maus que fazem o seu trabalho sujo). Faz dois anos que Jing Ling tenta entrar lá, e a aparição de um garoto sombrio e misterioso parece ser a chave que ela precisa para abrir a porta do último lugar ainda não revistado por ela. Ela precisará ir contra uma de suas regras de sobrevivência, precisará confiar no tal garoto. Será que isso irá condená-la?

"Existem três regras para sobreviver na Cidade Murada. Corra muito. Não confie em ninguém. Ande sempre com uma faca."

Dai é um cara com um passado truculento, e esse passado o assombra diariamente. E foi esse seu passado que o levou até Hak Nam, foi seu passado que lhe deu uma missão arriscada: espionar Longwai. Sua história é mantida em segredo por boa parte do livro, e a medida que vamos conhecendo o garoto e acompanhando o seu dia a dia, vamos entendendo que a coisa foi realmente feia, e saber tão pouco faz com que fiquemos doidos por mais, sempre mais. Dai é observador e anda nas sombras da cidade, e após salvar a vida de Jin Ling, ele sabe que encontrou o que precisa para dar o passo decisivo para sua missão: ele encontrou um corredor, e esse corredor o deixará frente a frente com Longwai.

Eu gostaria de falar mais sobre tudo, falar sobre como eles se conheceram, em que condições, como foi o tal "corre", como as coisas eram no bordel... mas acho que é exatamente isso que dá emoção ao livro, e eu não quero estragar a leitura de vocês - pois sei que vocês ficarão com vontadinha de visitar Hak Nam na companhia de Jin Ling, Dai e Mei Yee. Então, vamos às minhas impressões.

A trama é bem elaborada e permeada de segredos. Tais segredos fazem com que a gente fique preso a cada capítulo, e como é possível perceber desde as primeiras páginas, a intenção da autora é relevar tudo aos poucos, deixando o leitor cada vez mais curioso e envolvido com os personagens. Suas personalidades são encantadoras, fazem com que tenhamos empatia logo no primeiro contato, nos permite amar aos poucos, faz com que a gente se sinta íntimo de cada um deles.

"A Cidade Murada não é muito grande - tem o tamanho de uns três ou quatro campos de arroz -, mas compensa isso com altura. As casas de madeira se empilham, chegando a uma altura tão grande que não deixam a luz do sol passar. As ruas, que antes eram dominadas pelo dia e pelo ar fresco, hoje são meras passagens repletas de cabos. Às vezes me sinto como uma formiga operária, correndo pelos túneis escuros e sinuosos num circuito sem fim. Sempre procurando. Nunca encontrando."

A descrição de Hak Nam não poderia ser melhor, mais visual e sensorial. Grande parte disso se deve ao fato de que ela não é totalmente fictícia. A Cidade Murada foi real. Real e surreal, segundo a autora. Ela fica em Kowloon, Hong Kong. É também uma cidade sem lei, pobre e dominada por quadrilhas e facções criminosas, tudo muito parecido com um cenário distópico. E, confesso, quando li a sinopse achei se tratar de uma distopia, pois tudo ali é muito inacreditável - até que começamos a ler. Infelizmente percebemos que temos muitas e muitas Hak Nam's por aí.

Apesar de ser uma estória pesada, a delicadeza, sensibilidade e humanidade estão sempre muito presentes. Até mesmo os momentos mais deprimentes têm uma carga de emoção. A narrativa fluida da autora faz nos permite vivenciar tudo isso em cada acontecimento, em cada momento.

A edição está simples, porém muito bonita. Cada capítulo é narrado por um de nossos protagonistas, e tal detalhe facilita a proximidade com os mesmos. A revisão está muito boa, apesar de eu ter achado um ou dois errinhos de digitação. Nada que incomode, fiquem tranquilos.

Pra fechar, queria dizer que cá temos um livro que incomoda, mas que reacende a nossa parca esperança na humanidade. Eu, pelo menos, terminei o livro maravilhada e certa de que para tudo há solução, mesmo que o caminho seja cheio de percalços e obstáculos. Vi o que a determinação, amor e luta podem fazer pelo ser humano.

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