Resenha: O Pior dos Crimes


Título: O Pior dos Crimes | Autor: Rogério Pagnan | Editora: Record | Ano: 2018 | Páginas: 336

2008, Brasil. O país se choca com a morte da pequena Isabella Nardoni, uma criança de apenas cinco anos que até então, caíra do sexto andar do prédio onde seu pai morava. Acidente? Não. A garota havia sido jogada.

Crimes como este acontecem o tempo todo, infelizmente. Mas algo ali chamou a atenção de todos. A suspeita logo caiu em seu pai, Alexandre Nardoni; e em sua madrasta, Ana Carolina Jatobá.

O país se sensibilizou. Nos jornais e programas de TV não se falava em outra coisa. A mãe de Isabella, Ana Carolina de Oliveira, sensibilizou a todos com sua dor. Um anjo se fora. 

A perícia fez um trabalho digno de seriados americanos. O julgamento do casal, que demorara dois anos desde a morte de Isabella para acontecer, parou o país. Todos esperavam por justiça. Seriam mesmo eles os culpados? 

Essa pergunta foi respondida no julgamento por meio de provas, e dez anos após esse crime chocante, Rogério Pagnan traz uma obra que mostra o outro lado. Conhecemos bem a história de Ana Carolina de Oliveira, e estamos habituados a enxergar Alexandre e Jatobá como monstros, mas desta vez, Rogério trouxe uma nova visão sobre o casal.

Para quem não se lembra, Rogério Pagnan foi o jornalista que testemunhou a favor da defesa do casal. Ele quem entrevistou o pedreiro Gabriel, que afirmou ter visto o portão da obra em que trabalhava no prédio aberta no outro dia ao crime de Isabella. É o mesmo jornalista que danificou a maquete feita no dia do julgamento.

Agora que estão esclarecidos sobre o que se trata, vamos à resenha. 

Todos sabem muito bem que adoro ler sobre criminalística, e foi por isso que aceitei logo de cara ler essa obra em questão. A sinopse e as entrevistas que o autor cedeu para comentar sobre o livro deixam claro que não se trata de um objeto de defesa para o casal, mas sim de um livro em que questiona os métodos da justiça brasileira nos processos criminalísticos. 

Eu esperava encontrar um livro-reportagem, impessoal, sem lado. Esperava encontrar questões palpáveis, com argumentos inteligentes e elaborados sobre a perícia brasileira. Tinha expectativas em me deparar com uma obra necessária, que me instigasse a enxergar vestígios da inocência do casal, e não foi isso que encontrei.

Rogério realmente mostrou ao leitor o lado humano de Alexandre e Ana Carolina Jatobá, talvez nunca visto. Ele realmente aponta o quanto a justiça pode ser confusa, já que o casal, mesmo considerado culpado, não apresenta um risco à sociedade, sendo então mantidos presos por um único (suposto) crime. E ele compara o fato com outros crimes chocantes, que aconteceram bem depois de 2008, onde os então culpados, já estão a solta. 

Não estou dizendo que eles deveriam ser soltos. Aponto que os demais criminosos deveriam ter recebido a mesma punição (e talvez até uma maior) que eles. 

Outro ponto que concordei com o jornalista: qual o motivo para esse crime ter se tornado tão famoso? Afinal, crimes familiares acontecem o tempo todo, podemos nos esbarrar a qualquer momento com uma pessoa na rua que tenha matado friamente seus filhos, e ninguém sabe. 

Eu acho que o jornalista poderia ter investido em falar sobre isso. Mas não. Rogério claramente romantiza os condenados, satirizando a perícia, a promotoria e colocando em jogo a reputação da mãe de Isabella.

Impessoal? Em minha opinião, não. 

Ele não traz uma obra reflexiva com argumentos judiciais; com abordagem de leis; metodologia da criminalística, entrevistas... Ele nos conta o quanto o casal foi injustiçado reforçando apenas as falhas que a perícia cometeu, mas não apontou os acertos. O que me fez pensar: "ele não ousou chegar a esse ponto".

Confesso que eu já sabia que Rogério não seria impessoal desde o início da leitura, quando ele começa a narrar sobre o famoso caso do casal Chamberlain (que foram acusados de matar o filho, e na verdade a criança foi atacada por cães selvagens).

Mas mesmo assim li até o final. Liberdade de expressão é válida e sou a favor. Rogério tem todo direito de dizer o que pensa. Porém, os argumentos do jornalista não foram coerentes e não mudaram minha visão sobre o crime.

Não sabia como fazer essa resenha, então busquei os pontos que mais me revoltaram no livro para mostrar os motivos que me fazem discordar do jornalista.

Ele foi completamente machista em sua narrativa sobre Ana Carolina de Oliveira. A mãe de Isabella Nardoni é uma figura muito importante no processo, pois foi ela quem ajudou a acusação a montar a relação de Alexandre e Ana Carolina Jatobá. Foi sim necessário ao jornalista falar a respeito dela, mas a forma como o fez foi desrespeitosa e machista. 

Para quem não se lembra, Ana Carolina de Oliveira se relacionou com Alexandre Nardoni quando tinha apenas 15 anos e ele 21. Percebi uma diferença em sua narrativa quando abordou o relacionamento de Alexandre com Ana Carolina Jatobá. Ele romantizou a segunda relação, deixando nítido a todo momento o quanto a segunda era "a pobre menina rica". Já Ana Carolina de Oliveira, foi considerada inconstante, ciumenta. E o machismo chega ao ápice quando aponta sobre o fato de que quando soube da gravidez, aos 17 anos anos, cogitou a hipótese de abortar. Esse fato nunca foi comprovado na verdade, mas mesmo que fosse, estamos falando de uma menina de 17 anos e de um homem de 23 anos, assim sendo, quem seria o mais sensato na relação?

Foi uma jogada muito baixa. Outro ponto que me deixou desconfortável, foi a maneira em que narrou a relação da mãe de Isabella com a família Nardoni. Ele se apega em casos corriqueiros para traçar o perfil de ambas, como por exemplo datas de nascimento dos filhos. Enquanto Oliveira não quis que a filha nascesse no mesmo dia que a sogra, Jatobá sim. Sério isso jornalista? 

A instabilidade de Jatobá, seu ciúme, foi tido como uma situação comum de uma mulher que precisou amadurecer para cuidar da sua própria família. A de Oliveira, não foi tratada da mesma forma. Isso comprova ainda mais o quanto o livro não tem nada de impessoal.

Outra falha absurda no contexto Ana Carolina de Oliveira: ele não buscou entrevistá-la. Ele não colocou os argumentos dela nos questionamentos que levantou. Rogério disse em entrevista que não o fez, pois ela já tinha sido ouvida demasiadamente. Num livro-reportagem, onde levanta-se questões sobre a reputação de uma pessoa, eu espero ouvir todas as partes. Do contrário, não seria livro-reportagem, mas sim revista de fofoca!

Já que chegamos nesse ponto, outro pecado do autor foi o de não entrevistar (nem mesmo procurar) o promotor da acusação, Cembranelli. 

Rogério é muito impiedoso ao retratar as falhas da acusação, da perícia, do julgamento. E não o faz com provas e teses. Se usa de levantamentos como a graduação da perita, os erros que ela já cometeu em sua jornada. Aponta o quanto Cembranelli atingiu os holofotes da mídia, e de forma desumana, tenta plantar no leitor uma nova vilã para essa história, ao sugerir que quem mais se beneficiou com a morte da menina foi a família Oliveira. 

Rogério sugere que Jatobá sempre foi uma ótima madrasta, e se pega numa prova para comprovar tal feito, a do dia em que a mulher, ao invés de segurar a mão de seu filho menor num passeio, segurava a da enteada. Eu me lembrei do dia em que meu pai fora me buscar na escola. Todo carinhoso, primeira vez em um ano todo. Todos que viam apostavam o quanto aquele pai me amava, afinal eu estava completamente encantada com aquele feito. No outro dia ele tentou me matar. Enfim, acredito que não preciso argumentar sobre isso.

Em minha opinião, Rogério aponta que os dois acusados foram vítimas de um complô. E o que deixa isso muito inviável, é que se trata de um complô que envolve Ministério Público, polícia e imprensa.

Quando chegamos aos seus argumentos sobre a perícia, é nítido que ele se baseia apenas das falhas (que inclusive foram explicadas no julgamento). Acredito que, já que ele queria mostrar que houve um complô (foi essa minha interpretação pessoal, ressalto), então que revidasse os acertos da investigação. 

Ele questiona hipóteses levantadas pela polícia, mas abre hipóteses sobre a mãe de Isabella baseando-se em versões de uma ex-noiva de Alexandre. O que vai contra sua declaração sobre "não ser um livro sobre defesa". Oras, como levar em consideração depoimentos de pessoas que estão completamente envolvidas com o acusado?

As provas da autópsia não foram abordadas. Ele não trouxe uma explicação plausível sobre a cama que Alexandre afirma ter colocado Isabella estar com brinquedos e até papel em cima, tornando o feito inviável.

Por que não coletou informações com a mãe da criança? Por que não entrevistou outros personagens ícones do caso? Por que ele não apresentou outros crimes com falhas judiciais? 

Finalizando, Rogério usa os mesmos fins da defesa do casal: desmoraliza, mesmo que indiretamente, profissionais ligados ao caso e não a perícia e a lei nacional em si. Para defender seu ponto de vista, ele ataca. Se tivesse se mantido na impessoalidade, talvez sim a obra poderia mesmo ser de cunho satisfatório para uma análise reflexiva sobre as investigações criminalísticas de nosso país. Mas por seu feito, ela se torna um romance de um cara inconformado.

Não vou dizer que não é uma obra necessária. Talvez tudo que apontei seja uma falha tremenda da minha parte, pois não sou advogada, não sou perita. Porém, enquanto leitora, posso afirmar que Rogério foi infeliz ao não fazer um trabalho jornalístico preciso. Ele foi humano, apenas isso. Trabalhou naquilo que acredita, o que me leva a pensar que talvez ele não foi tão a fundo nesse trabalho justamente para não mudar sua crença.

1 comentário:

  1. Pela resenha já deu pra ter uma ideia de quão porqueira é o livro. Bom saber, assim não perco meu tempo com essa obra. Parabéns pela resenha.

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