Especial - Dia dos Namorados com a autora Nana Pauvolih

O Conto do Dia dos Namorados feito pela a Nana Pauvolih é inédito. Ficou muito lindo e emocionante! 

Os personagens são novos, a história é nova. Preparem-se para se emocionarem e ansiarem por mais.



O dia em que você chegou

Eu nunca saía para me divertir nos finais de semana. Passava geralmente meu tempo no apartamento, organizando minhas coisas, trabalhando nas traduções que eu fazia para uma editora, vendo filme, escutando música ou lendo. É claro que de vez em quando eu saía de casa, mas na maior parte das vezes meu mundo era aquele apartamento que eu dividia com outras duas moças.
Gostaria de ser uma pessoa mais expansiva, até mais corajosa. Mas sempre fui tímida, inibida, quieta. E há dez anos, desde que fui acometida seriamente por uma artrite reumatoide muito grave e séria, me isolei ainda mais. O fato de não ter familiares a não ser minha mãe e dela ter morrido quando fiz dezenove anos, me deixando sozinha, também contribuiu.
E agora estava eu ali, prestes a fazer vinte e cinco anos, uma mulher adulta, francamente indecisa sobre sair ou não aquela noite com minhas duas companheiras de apartamento. O fato é que eu nunca saía com elas, mas minha melhor amiga, Eva, fez aniversário naquela semana e deu uma festa na casa de seu namorado. Eu não fui. Agora ela me cobrava uma comemoração particular naquele sábado, em um restaurante que ela adorava.
Eva sabia que eu não gostava de sair. Mas às vezes usava táticas como chantagem emocional para me tirar de casa. Eu não era um bicho do mato, mas minha doença me limitava bastante. Quando estava bem, conseguia até sair de muletas. Era o máximo que eu conseguia das minhas pernas. Mas em geral eu estava com dores e precisava da cadeira de rodas ou, em momentos de crise, ficar deitada. Felizmente a doença estava em remissão e, por algum tempo, eu estava bem e quase sem dores.
- E aí, Angelina, vamos? – Eva tinha acabado de entrar na sala e se sentou no sofá ao meu lado. Ainda não tinha se arrumado, mas estava maquiada e o cabelo caía liso e sedoso após ela chegar do cabeleireiro.
Eu a olhei sem querer magoá-la. Queria ficar em casa e ver o filme que daria à noite na televisão. Mas eu adorava Eva, ela era minha melhor amiga e queria sair comigo e com Daniela aquela noite para comemorar seu aniversário uma segunda vez porque eu não fora na primeira festa.
- Quer mesmo ir? – Perguntei sorrindo.
- Claro que sim. E hoje você não tem desculpas. Está bem e sem dor. Vamos lá, Angelina! Deixe de preguiça!
- Certo. – Acabei concordando. Eva não desistiria até me arrancar de casa naquela noite. – Que horas sairemos?
- Que tal às oito? Daniela vai chegar do trabalho e a gente vai. – Eva sorriu e me deu um beijo no rosto. – Você vai gostar. O restaurante é maravilhoso e na Barra, de frente para o mar. Além do mais, é dia dos namorados. Isso te diz alguma coisa?
Sorri, em entender. Comentei:
- Não tenho namorado!
- Mas quem sabe não arruma? Lembra aquela moça que veio aqui uma vez com a Daniela, que disse jogar búzios? Ela falou que o amor ia entrar na sua vida no dia dos namorados!
- E você acreditou? – Achei graça.
- Quem sabe? Daniela disse que é ótima. – Piscou para mim enquanto se levantava. – Vamos ver! Vou escolher um vestido bem bonito. Quero que você capriche também!
- Ah, pode deixar. – Balancei a cabeça, rindo.
Com a ajuda das muletas, saí da sala e caminhei para o meu quarto. O apartamento não era enorme, mas possuía três quartos pequenos, o que permitia que cada uma de nós tivesse seu próprio quarto. Segui para o meu, que era praticamente meu mundo. Ali eu dormia em uma grande cama de casal, possuía uma poltrona bem confortável que foi da minha mãe e trabalhava no computador que ficava em uma mesinha do canto. Era o único quarto que tinha banheiro junto. Eva fez questão que ficasse para mim, devido as minhas dificuldades de locomoção. Daniela queria o quarto a até protestou, mas no fim escolheu um outro e concordou.
Sentei na beira da cama, deixei as muletas de lado e abri duas portas do guarda-roupa embutido, olhando as opções que eu tinha de roupa. Mas meu pensamento vagou e pensei de novo que eu e Daniela, apesar de morarmos juntas ali por três anos, não éramos exatamente amigas. Não como eu e Eva. Em alguns momentos sentia que Daniela se incomodava com minha doença, principalmente quando levava namorados ali ou quando eu era vista em público com ela. Aprendi com o tempo que muitas pessoas se sentiam mal perto de deficientes, ou com pena
Afastei-a do pensamento e olhei com atenção para minhas roupas. Não tinha muita opção para sair. Só o básico e roupas confortáveis. Suspirei e remexi nas roupas, procurando algo um pouco melhor. Escolhi uma calça larguinha preta e uma camiseta branca que Eva me deu de presente no Natal e que caía bem em mim. Ela possuía um belo detalhe rendado no peito e tinha alças finas. Para completar, sandálias baixas e confortáveis de couro. Meu pé direito era ligeiramente deformado pela artrite, mas ainda não dava para perceber muito bem. Só com o tempo ele pioraria.
Tentei não pensar o que mais com o tempo pioraria. Eu era consciente de como aquela doença poderia me fazer piorar no futuro, mas procurava não me angustiar com aquilo e viver um momento de cada vez.
Depois de ter tomado banho e me vestido, Eva entrou no meu quarto com um kit de maquiagem na mão e sorrimos, pois nas poucas vezes que eu saía insistia que me produzisse um pouco mais. Naquele momento a porta do quarto abriu e Daniela apareceu, linda e impecável como sempre. Ela trabalhava em uma chique loja de roupas femininas, até nos sábados. Parecia vinda de uma festa e não do trabalho.
- Ah, vocês estão aí. Cheguei agora, mas já vou me aprontar. Vamos sair que horas?
- Mais ou menos às oito. – Respondeu Eva.
- Você vai, Angelina? – Perguntou Daniela.
- Vou. Eva me convenceu. – Sorri.
- Que bom. – Mas ela não parecia muito animada. – Vou me arrumar.
Ela saiu e Eva nem pediu, já começou a me maquiar. Eu deixei, ate que sorriu satisfeita.
- Linda! Veja só!
Eva abriu uma das portas do guarda-roupa, com espelho do lado de dentro. Sentada na cama, me fitei no espelho. Fiquei até surpresa. Sempre me via de cara limpa, cabelo preso, roupas largas. Agora uma moça esguia de longos cabelos castanho-claros me fitava. A maquiagem era suave, mas deixou meus olhos cor de mel ainda maiores e mais claros e valorizou minha boca carnuda. Sorri.
- Você fez milagre, Eva.
- Que nada! Você é linda de qualquer jeito, com essa pele de porcelana e essa boca pecadora.
- Pecadora? – Achei graça.
- É carnuda e sensual. Seu rosto é de anjo. Mas sua boca!
Nós rimos. Peguei minhas muletas e fomos juntas para a sala esperar Daniela para sair.


O restaurante era maravilhoso, de bom gosto e exatamente de frente para a praia. O clima ali era leve e descontraído, com Bossa Nova como música de fundo, ótimo atendimento e uma vista espetacular. Sentamos numa mesa perto da janela e o garçom pôs minhas muletas num cantinho, fora das vistas e num lugar que não nos atrapalhasse. Pedimos vinho tinto e olhei em volta à vontade, satisfeita por estar ali.Estava cheio, acho que com todas as mesas lotadas. Várias pessoas dançavam, principalmente casais.
- Aqui só tem gato. – Comentou Daniela, afastando uma mecha do liso cabelo loiro de seu rosto.
Ela era linda e se cuidava muito bem. Chamava muita atenção dos homens e com certeza logo arrumaria uma paquera. Comentei:
- Adorei o lugar.
- Viu com é bom sair de vez em quando? – Eva sorriu para mim com carinho.
- Você sempre tem razão, Eva. Eu é que às vezes sou chata demais.
- Eu entendo você. – Disse Daniela para mim. – Não deve ser fácil sair e se divertir sentindo dor.
- Mas às vezes ela não está com dor. – Falou Eva. – Como hoje.
- Mas hoje estou aqui. – Sorri para elas.
O garçom voltou com a garrafa de vinho e serviu nas taças. Afastou-se e nós brindamos aos trinta anos de Eva. Tomei um gole. O vinho era delicioso, suave, maravilhoso.
Começamos a conversar animadamente sobre banalidades e rimos das histórias que Eva contava do banco em que trabalhava. A música gostosa, a vista espetacular da praia, o vinho bom e a boa companhia me deixaram relaxada, aproveitando aquele momento de lazer. Pedimos frutos do mar ao garçom e continuamos o papo animado.
Uma mesa quase em frente à nossa estava ocupada por dois rapazes e Daniela já tinha comentado que eram gatinhos. Naquele momento, chegaram mais quatro rapazes e eles fizeram algazarra, rindo e se cumprimentando. Meu olhar foi automaticamente atraído por um dos homens que chegaram, no exato momento em que Daniela olhava para trás e comentava:
- Nossa! Olha só aquele moreno!
Eva, ao lado dela, virou-se disfarçadamente para olhar, mas eu já o tinha visto. Ele era lindo e por um momento senti o tempo parar, só olhando para ele.
Eu nunca havia visto um homem tão espetacular. Ele era bem alto, esguio, mas visivelmente musculoso. Parecia um desses homens esportistas, que gostavam da vida ao ar livre e do sol. Sua pele era bronzeada e seu cabelo negro displicente, brilhante, caindo preguiçoso em sua testa. O corpo era perfeito, de ombros largos, braços fortes, mãos grandes e esguias. A blusa branca e o jeans eram à vontade, mas caíam nele como se o estilista tivesse feito exclusivamente para seu corpo. O rosto era ao mesmo tempo másculo e levado, como se ele tivesse o costume de sorrir muito e isso suavizasse seus traços angulosos.
Era um homem que não se via comumente nas ruas. Muito bonito, muito chamativo, com um sorriso maravilhoso e sensual. Tinha sobrancelhas negras, cílios enormes, nariz afilado e uma boca carnuda tentadora. Seu queixo era firme, com covinha e seu maxilar duro, anguloso. Havia também uma bela covinha em sua face esquerda, visível devido ao seu sorriso charmoso, que expunha dentes brancos e perfeitos. Ele olhava para os amigos que cumprimentava, velando seus olhos. Deviam ser negros como seus cabelos, pensei distraída pelo magnetismo dele.
Naquele exato momento ele olhou na minha direção. Recebi, sem aviso, o impacto de seus olhos penetrantes, de um azul intenso que eu nunca tinha visto antes. Era um azul escuro, quase violeta, mas indiscutivelmente azul.
Senti um susto, como se algo balançasse dentro de mim. Ele fitava diretamente meus olhos e fiquei imóvel, sem nem ao menos conseguir pensar direito. Havia algo tão forte em seu olhar, que por um momento mal consegui respirar.  Foi então que alguém falou com ele e bateu em seu ombro. Ele desviou o olhar e me senti perdida.
Confusa e abalada, fitei a taça de vinho que eu segurava com força sobre a mesa. Meu Deus, o que fora aquilo? Nunca havia me sentido tão afetada por outra pessoa como por aquele estranho.
- Puxa... – Comentou Eva, impressionada. – Que homem!Esse aí deve arrasar corações por onde passa.
- Ele pode pisotear o meu. – Sorriu Daniela.
Tomei um gole do vinho, nervosa. Não entendia bem o que tinha acontecido. Aquele homem, aquele olhar, pareciam gravados na minha mente. Eu não o olhava, mas só via a ele. Fiquei com medo de olhá-lo de novo, embora percebesse movimento na mesa dele. E embora minha vontade fosse só a de olhá-lo de novo.
- Você viu aquele moreno, Angelina?
- Hã? – Fitei Eva. – Quem?
Ela riu.
- Aqueles rapazes que chegaram agora são uns gatos, mas viu aquele moreno de camisa branca? Lindo de morrer!
- Ah, é, eu vi.
Como se meus olhos tivessem vida própria, se voltaram para a mesa dele. Ele havia se sentado de frente para mim. E me olhava.
Meu coração disparou como um louco dentro do peito. Senti um baque na boca do estômago e prendi o ar por um momento. Meu Deus, que olhos lindos ele tinha! Abalada, mal acreditei quando ele sorriu lentamente para mim.
Na mesma hora desviei o olhar, nervosa, fitando a praia lá fora. Meu coração continuava martelando no meu peito e todo meu corpo reagia sem controle. Nunca tinha me sentido daquela maneira por ninguém e não sabia como me portar. Olhei a praia sem ver.
Eva e Daniela riram, falando algo, mas não consegui escutar. Tentei me acalmar. Eu não era uma adolescente. Tudo bem, ele era lindo de morrer, sensual, maravilhoso, de outro mundo, mas era só um homem. Minhas amigas também o acharam lindo, mas não estavam como eu. Por que eu estava assim, tão descontrolada e afetada por ele? O que era aquilo?
O garçom veio para nossa mesa com a comida. Tentei me concentrar nele e no que Eva dizia, mas estava difícil. Lutei para não olhar novamente para o estranho de olhos azuis.
O garçom nos serviu e se afastou. Eva indagou:
- Tudo bem, Angelina?
- Hã? – Olhei-a. Forcei um sorriso. – Claro!
- Está corada! Não está com dor, está?
- Não, estou bem. Esse camarão parece delicioso!
- É demais!
Pus um pouco da comida em meu prato. Podia sentir aqueles olhos azuis em mim, me queimando, me desnorteando. Eu só podia estar imaginando. É claro que ele não estava me olhando. Era imaginação minha. Eu estava ficando maluca.
- Ele está olhando para cá. – Daniela falou baixo.
Estremeci. Ergui o olhar para ela. Daniela sorriu:
- Acho que ele gostou da gente.
- É sério? – Eva disfarçou e olhou para a mesa dele sobre o ombro. Depois olhou para mim. – Angelina, ele está olhando para você.
- O quê? – Indagou Daniela, virando para conferir.
Não consegui dizer nada. Só fitei Eva, enquanto ela sorria.
- Ele... – Daniela franziu o cenho e me encarou, séria. – Está mesmo.
Não tive coragem de dizer nada. Estava nervosa, confusa, sem saber como agir. Assim, não fiz nenhum comentário. Fitei a comida em meu prato e comecei a comer automaticamente.
- Angelina, você ouviu? – Eva sorria de orelha a orelha. – Aquele pedaço de mau caminho está te paquerando. Quem sabe é o amor do dia dos namorados?
- Pare com isso, Eva.
- Que conversa é essa? – Daniela não entendeu.
- Mas estou falando a verdade! Olhe pra ele! – Eva continuou.
Senti o rosto queimar. Eu queria sorrir, fazer alguma brincadeira, mas estava nervosa. Belisquei um camarão com o garfo e comi sem saber o que eu estava mastigando.
- Que sortuda! – Exclamou Daniela, em tom de queixa.
- Vamos comer. – Falei, tentando desviar a atenção delas. Estava tensa e envergonhada.
Comi e bebi como um robô. Ouvi risadas masculinas na mesa dele, ouvi chamarem o garçom, mas não olhei de novo para lá. De repente, lembrei que minhas muletas não estavam à vista. Ele não sabia que eu não me sustentava sobre minhas próprias pernas. Não sabia da minha deficiência. Tudo o que ele via de mim era da cintura para cima.
Pensei que talvez ele só estivesse me olhando pois percebeu como me afetou. Talvez estivesse se divertindo às minhas custas.
Lembrei de outras vezes, no passado, em que fui a locais públicos. Alguns homens me paqueraram. Até verem que eu era aleijada. Aí então o olhar mudava. Era de pena, de decepção ou simplesmente de desprezo.Por um momento senti quase dor física imaginando um daqueles olhares nos olhos azuis dele. Assim, decidi ignorá-lo. Era perda de tempo.
A noite acabou se tornando uma tortura. Sorri e conversei com Eva e Daniela, mas todo o tempo estive consciente de que ele estava perto. Não quis me torturar pensando como tudo seria diferente se eu não tivesse aquela doença, se minhas pernas fossem fortes e sadias, se eu fosse como minhas amigas. Talvez então eu pudesse olhá-lo, sorrir para ele, arriscar.
Mesmo assim, não consegui resistir ao desejo insano de olhá-lo só mais uma vez. A última. Só para ver que ele não estava nem aí para mim. Talvez ele tivesse reparado como Eva e Daniela eram mais bonitas, como eu era sem graça, acostumado como devia estar com mulheres de arrasar.
Eu o olhei, ansiosa. Ele ria com os amigos, à vontade, jovial, segurando uma tulipa de cerveja. Na mesa estava a maior bagunça. Mas ele me surpreendeu ao olhar novamente para mim. Seus olhos azuis se tornaram mais suaves. E seu sorriso se ampliou.
“Ai, meu Deus!”, gemi intimamente, sentindo algo quente, gostoso e desconhecido deslizando dentro de mim. Meu coração bateu forte de novo, sem controle, abalado. Um dos amigos dele falou algo, cutucou-o, e ele respondeu sem desviar os olhos dos meus. Na mesma hora o rapaz se esticou para me olhar e os outros da mesa também, se virando e olhando na minha direção.
Senti meu rosto pegar fogo. Ele falara algo de mim para os amigos. Na mesma hora desviei o olhar. Eva me encarava sorrindo. Falou baixo:
- Você também está olhando para ele.
- Pare, Eva. – falei, nervosa.
Eu não sabia como me portar ou o que dizer. Era a primeira vez que algo assim acontecia comigo.
- Ele está vindo para cá. – Avisou Daniela.
Tomei um grande susto e olhei rapidamente na direção dele. Fiquei imóvel ao vê-lo já ao lado da minha mesa, mais alto, mais lindo e mais impressionante assim de perto. Fiquei sem fala ao encontrar seus belíssimos olhos azuis.
- Oi. – Sua voz era grossa, máscula, meio rouca. Olhava para mim e estendeu sua mão. -Valentim Mattos.
Reagi sem nem ao menos notar. Como se não pudesse resistir, ergui minha mão e ele a segurou. Uma onda de calor percorreu meu corpo como uma labareda. Murmurei:
- Angelina de Moraes.
- É um prazer, Angelina.
O sorriso dele era envolvente, doce, sensual. Tive vontade de sorrir de volta, como uma boba, encantada. Mas aí percebi que a gente continuava se olhando, minha mão pequena bem encaixada entre seus dedos longos e firmes. Corada, tirei minha mão devagar e olhei para Eva e para Daniela, sem saber como me portar. Elas o olhavam, excitadas.
- Oi, sou Daniela. – Ela deu seu melhor sorriso para ele. – E esta é Eva.
- Como vão? – Simpático, Valentim sorriu. – Desculpe atrapalhar o jantar de vocês.
- Oh, não está atrapalhando. – Eva retrucou sorridente. – Por que não se senta um pouco conosco? Há um lugar vago ao lado da Angelina.
Ele voltou seus olhos lindos para mim.
- Posso, Angelina?
Se ele podia? O quê? Desnorteada, fiz que sim com a cabeça e ele se sentou ao meu lado. Na mesma hora se virou para mim e indagou:
- Você vem sempre aqui?
Fitei seus olhos. Eram de um azul tão escuro e profundo, num tom de cobalto. As sobrancelhas negras e os cílios fartos valorizavam ainda mais o seu olhar, meio entrecerrado. Seu rosto másculo, perfeito, deixou-me encantada. Seu ombro quase tocava o meu.
- É a primeira vez.
Procurei me acalmar e conversar com ele normalmente. Mas era difícil, com meus hormônios em polvorosa. Lancei um olhar para a mesa em que ele estivera e vi que seus amigos olhavam pra gente, sorriam, cochichavam entre si. Voltei meu olhar para Valentim.
- Por que você está aqui?
- Quer mesmo saber? – Ele sorriu mais, como se estivesse se divertindo.
- Fez algum tipo de aposta com seus amigos?
Valentim me avaliou com seu olhar brincalhão. Depois falou:
- Não, Angelina. Já passei da idade disso. Se quer saber, eles me perguntaram o que tanto eu olhava para cá e tive que dizer que era para você. Foi só isso.
Só isso? Senti que corava como uma boba. Sentia-me entre encantada e apavorada. Brinquei sem graça com a toalha da mesa, desviando o olhar dele.
- Estou incomodando você?
- Não. É que não entendi por que...
- Por que eu olhava para você? Quer receber elogios?
- Não, eu só... eu...
- Desde que fitei esses seus olhos grandes soube que precisava conhecer você, Angelina.
- Está brincando comigo?
- Não.
Ele falou sério. Apesar de seu tom simpático, divertido, seu olhar era obviamente sedutor.
- Você é diferente. – Disse pensativo.
Fitamo-nos nos olhos. Tive vontade de dizer o quão diferente eu era, com minhas muletas num canto. Mas não tive coragem. Eu queria mais um pouquinho daquele olhar cativo para mim.
- Como?
- É doce, tímida, encantadora. Difícil alguém como você hoje em dia. E linda.
- Obrigada. Mas talvez eu seja apenas uma garota comum, surpresa por receber o olhar de um homem li... – Calei-me, surpresa de verdade por que eu ia elogiá-lo claramente chamando-o de lindo.
- Continue, estou gostando da conversa.
- Deve estar acostumado com isso.
Acabamos sorrindo. Era engraçado, mas parecia que a gente tinha esquecido do resto do mundo, conversando com olhos apenas um para o outro. Eu me sentia estranhamente feliz.
- Fale um pouco de você, Angelina.
- O quê?
- Você trabalha?
- Sim. Sou tradutora. Traduzo livros norte-americanos e ingleses, geralmente bestsellers.
- Interessante. Deve adorar ler.
- Gosto mesmo. Sou quase uma viciada. E você?
- Se gosto de ler ou no que trabalho?
- Pode responder as duas?
- Posso. – Valentim sorriu. – Também adoro ler. Mas trabalho com o corpo, não com a mente. Sou professor de Educação Física.
- Ah! – Eu devia ter adivinhado, com o corpo obviamente perfeito que ele tinha. Pensei em minhas pernas fracas, com cicatrizes, em processo de deformação. Éramos totalmente opostos. Desviei os olhos por um momento. Por que eu estava ali, conversando com ele? Aquilo não ia dar em nada!
- Hei, por que esse olhar triste?
Fiquei surpresa por ele ter notado. Forcei um sorriso, tentando disfarçar.
- Não estou triste.
- Tem algo contra professores de Educação Física? – Ele brincou.
- Claro que não. Deve ser maravilhoso, Valentim. – Falei seu nome pela primeira vez e o senti rolar na língua, diferente. Comentei: - É o primeiro Valentim que conheço.
- Coisa da minha mãe. – Sorriu charmoso e fez uma careta. Fiquei curiosa:
- Tem uma história atrás disso?
- Coincidências. Meus pais se conheceram no dia dos namorados. E eu nasci dia 14 de fevereiro, que na verdade é a origem do dia dos namorados.
Por um momento olhei para ele surpresa, lembrando que era 12 de junho e o que a tal jogadora de búzios falou. Mas logo afastei a ideia. Não acreditava naquelas coisas. E Valentim mexia comigo demais, mas não era o amor da minha vida. Eu duvidava que o visse depois daquele dia. Prestei atenção no que dizia:
- Durante o Império Romano, um bispo da Igreja Católica, São Valentim, foi proibido de realizar casamentos pelo Imperador Claudius II. Mas continuou a fazer de forma secreta. Foi preso e condenado à morte. – Sua voz era grossa, linda, e vê-lo falar, se expressar, deixava-me encantada. Esqueci do mundo olhando-o e ouvindo-o: - Enquanto esteve na prisão, recebeu diversos bilhetes e cartões de jovens apaixonados, valorizando o amor e o casamento. O bispo Valentim foi decapitado em 270. Em sua homenagem essa data passou a ser destinada aos casais de namorados e ao amor. Até hoje nos EUA 14 de fevereiro é dia dos namorados. No Brasil foi escolhido o dia 12 de junho por ser véspera do dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro.
- Interessante, eu não sabia de nada disso.
- Pois é. – Seus olhos passavam por meu rosto, preguiçosos. Deixava-me sem ar, abalada. – Durante um tempo minha mãe ficou na dúvida entre Valentim e Antônio. Mas achou o primeiro diferente, forte. E cá estou eu.
- Eu gostei.
- Da história ou do nome? – Ergueu uma sobrancelha.
- Dos dois. – Acabei sorrindo.
- Ótimo. E eu gostei muito de você, Angelina.
Eu o olhei. Valentim fitava meus olhos. Uma corrente de energia pura e intensa parecia nos envolver. Ao fundo tocava uma música internacional antiga e linda, YouNeed Me, de Anne Murray:

(...) And I can'tbelieveit'syou
(E eu não posso acreditar que seja você)

I can'tbelieveit'strue
(Não posso acreditar que seja verdade)

I neededyouandyouwerethere
(Eu precisei de você, e você estava lá)

AndI'llneverleave, whyshould I leave?
(E eu nunca partirei, por que eu deveria?)

I'dbe a fool 'cause I finallyfoundsomeonewhoreallycares
(Eu seria uma tola, porque finalmente encontrei alguém que se preocupa)



Ele perguntou baixo:
- Quer dançar comigo?
Senti uma dor quase física com aquela pergunta. O fio de esperança que eu estendia, de fingir que eu era uma jovem totalmente normal paquerando um cara lindo, se rompeu. Mas não desviei o olhar. Fui firme quando falei:
- Não, Valentim.
- Por quê?
- Eu não posso.
- Não pode?
Eu não podia, não queria contar a verdade para ele. Sentia-me quebrar por dentro, arrasada. Mas não deixei transparecer. Assim, menti:
- Não quero. Eu... Olha, você é muito legal. Mas eu...
- Diga.
- Não quero dançar com você. Nem nada além de amizade.
- Entendi. – Seu olhar azul, denso, percorreu o meu. – Mas seu olhar diz o contrário. Desde que nos vimos, algo aconteceu. Sei que você sentiu, Angelina.
- Eu sei, mas... – Eu não sabia o que dizer.
- Você tem alguém? Um namorado?
- Sim. – Menti, sem poder encará-lo, me agarrando naquela desculpa.
- Cadê ele?
- Nós brigamos, mas vamos nos entender. Desculpe. – Estava nervosa, minhas mãos tremendo. Mas tentei manter a mentira.
- Não precisa se desculpar. Ele é importante para você?
- É.
Naquele momento, um dos rapazes da mesa dele se aproximou de nós, pediu licença e disse para ele:
- Valentim, nós já vamos.
- Certo. Já estou indo.
O rapaz sorriu e se afastou.
Ele me encarou bem sério. Estremeci.
- Angelina, não quer mudar de ideia? Posso ficar aqui, pra gente se conhecer melhor.
- Não. É melhor você ir. – Foram palavras difíceis de dizer. Mas necessárias.
O olhar dele quase me fez chorar pelo que não podia ser. Mas me mantive firme.
- Tudo bem, não vou forçar nada. Se você mudar de ideia, ligue pra mim. Vou estar esperando.
Valentim tirou um cartão da carteira e me entregou. Havia o nome dele, o de uma academia de ginástica na Barra e alguns telefones, inclusive um celular.
- Obrigada. Mas não vou ligar.
- Por que tenho a sensação de que você não está me contando tudo? Você diz uma coisa, mas seu olhar diz outra.
- É como eu te falei.
Ele não acreditava, era óbvio. Também, como acreditaria se eu o olhava cheia de desejo? Se eu tinha vontade de arriscar, falar da minha deficiência e rezar para que, por um milagre, ele não se importasse? Era sonhar demais. E eu era muito realista para isso.
- Guarde o cartão, Angelina. Ligue quando quiser.
Eu apenas concordei com a cabeça.
- Acho que só me resta ir embora. – Valentim segurou minha mão sobre a mesa. Sem que eu esperasse, levou-a suavemente até seus lábios e beijou-a. – Mas eu não quero ir.
- Valentim...
- Certo. – Lentamente, ele soltou minha mão.
- Adeus.
- Até breve, Angelina. – Ele deu mais uma vez aquele seu sorriso devastador. Sorri de volta, com o coração doendo. Era extremamente difícil saber que ele sairia da minha vida. Mal tinha dado tempo de aproveitar mais dele. Vi-me carente, ansiando por mais, com vontade de implorar. Mas me mantive focada, a realidade clara demais na minha mente.
Valentim também não parecia querer ir. Mas se levantou.
- Foi um prazer conhecer vocês. – Ele se despediu de Eva e Daniela, sorriu mais uma vez para mim e, sem que eu esperasse, acariciou suavemente o meu cabelo, seu olhar azul escuro me consumindo, deixando-me completamente paralisada. – E você.
Então se afastou para a outra mesa.
Sem aguentar mais olhá-lo, sabendo que nunca mais eu o veria, desviei meu olhar para a praia lá fora. Sentia um aperto horrível no peito.
- Não acredito que você vai deixar ele escapar, Angelina! – Disse Eva, baixo. – Diga para ele porque o dispensou. Deixe ele decidir se é importante ou não conhecer você, com ou sem muletas.
- Não.
- Você gostou dele, querida. Arrisque!
- Eva, me deixe quieta.
- Droga! – Ela reclamou.
- Ela sabe o que faz. Já deve ter passado por isso antes. – Opinou Daniela.
- Quem garante que ele não é diferente? – Insistiu Eva. – Merda, Angelina, ele foi embora!
Continuei olhando para a praia. Apertei o cartão dele entre os dedos e me recusei a chorar. Ia passar. Como tudo o mais.


Algumas semanas se passaram. Minha rotina continuou a mesma, em casa, trabalhando, sofrendo ocasionalmente de dores. Mas algo havia mudado. Não havia um dia que eu não pensasse em Valentim Mattos ou pegasse seu cartão e não tivesse vontade de ligar para ele. De qualquer forma resisti, pois sabia que a lembrança era o máximo que eu poderia ter dele.No início Eva me perturbou para mudar de ideia e ligar para ele, arriscar. Mas por fim desistiu e não tocou mais no assunto.
Havia se passado quase um mês desde o encontro no restaurante, quando Daniela chegou uma noite do trabalho e foi para a cozinha onde eu e Eva terminávamos de fazer o jantar. Sentou-se em frente a mim à mesa, onde eu descascava batatas e falou:
- Vocês não sabem quem eu encontrei hoje. – Seus olhos escuros fixaram-se diretamente em mim.
- Quem? – Perguntei casualmente, distraída.
- Valentim.
Olhei-a rapidamente, parando de descascar batatas. Meu coração acelerou loucamente no peito.
- Onde? - Eva indagou, do fogão onde refogava o tempero do arroz.
- A Aninha, uma colega minha do trabalho, faz ginástica na academia dele lá na Barra. Eu queria trocar de academia e fui com ela hoje me matricular. Acredite se quiser, Valentim estava lá. E não é apenas um professor de Educação Física, Angelina. Ele foi bem modesto, pois ele é o dono da academia. O cara nada na grana!
- Você falou com ele? – Perguntei baixinho, ansiosa.
- Claro! Ele me reconheceu. Perguntou por você.
Engoli em seco, nervosa. Meu coração batia tão forte que eu o sentia contra as costelas.
- Perguntou o quê?
- Ah, ele me cumprimentou e falou: E a Angelina? Disse que estava tudo bem. Aí ele perguntou como estava seu namoro. Como eu não sabia de nada, disse que estava bem, tudo legal.
- E aí? – Indagou Eva.
- Aí ele não perguntou mais nada. Me mostrou a academia e foi super simpático.
- Você falou pra ele sobre... sobre a minha doença?
- Não.
Fiquei quieta e voltei a descascar a batata. Mas estava agitada, excitada, nervosa. Ele se lembrou de mim. Perguntou por mim e por meu namoro fictício. Devia achar que não liguei para ele, pois estava firme com meu namorado. A vontade de chorar veio forte, mas não demonstrei.
- Você vai malhar agora na academia dele? – Perguntou Eva.
- Vou. Começo amanhã. O próprio Valentim dá as aulas de aeróbica. Aninha disse que ele é o máximo. – Daniela sorriu e disse em tom de conspiração: - Em todos os aspectos.
Ergui de novo o olhar para ela. Eva perguntou:
- Como assim?
- Ela disse que ele é muito assediado pelas garotas, mas não é nem um pouco tímido. Pega todas, se vocês me entendem. É um garanhão.
- Normal. – Opinou Eva. – Ele é lindo e solteiro.
Não falei nada. Mas saber daquilo me deu uma sensação ruim, como se nosso encontro não tivesse significado nada. Foi só mais uma paquera para ele. Daniela continuou:
- Nem a Aninha escapou.
- Sua colega? – Eva me olhava, sem saber se devia interromper o assunto ou continuá-lo.
- Disse que uma vez, quando começou a frequentar a academia dele, eles deram uma saída. Só uma vez. Foram dançar e depois, vocês sabem. – Ela riu. – Fiquei até com calor das coisas que ela disse que fizeram. Pelo visto Valentim é mesmo um garanhão. Em todos os sentidos. Aninha disse que ele é muito bem provido. Entendem? Bem dotado. E sabe usar muito bem o que Deus lhe deu!
Eu não ri. Me sentia horrível, com ciúmes, com raiva. Daniela parecia ansiosa em falar mais, mas Eva cortou-a:
- Bem, isso não vem ao caso. Como eu disse, é livre e solteiro. Mas aposto que, se tiver uma namorada, não vai ficar saindo por aí com outras.
- Como você sabe? – Daniela afastou o cabelo do ombro. – Desculpe, Angelina, mas se quer saber eu acho que ele é o maior galinha e que você fez bem em não cair na conversa dele. Pra terem uma ideia, senti que ele ficou me paquerando hoje. Eu é que fiquei na minha, por sua causa.
- Minha causa? – Olhei-a, disfarçando o mal estar. Falei seriamente: - Não precisa se incomodar por mim. Não tenho nada com ele. Como você mesma disse, ele deve estar acostumado a paquerar todo mundo.
- Quer dizer que você não se importa se eu...
- Daniela! – Exclamou Eva, irritada.
- Claro que não. – Terminei de descascar uma batata e peguei outra, fingindo indiferença, quando tudo se apertava dentro de mim.
- Chega, Daniela.
- Ai, Eva! Calma! Não está mais aqui quem falou! – Daniela se levantou. – Vou tomar meu banho. Estou exausta!
Ela saiu da cozinha. Eva começou:
- Angelina...
- Não quero mais falar sobre Valentim, Eva.
- Você é muito teimosa! Desiste fácil das coisas! Nem ao menos arrisca!
- Arriscar o quê? – Sorri para ela sem vontade. – Sou aleijada, querida. Vou piorar cada vez mais, até ficar encarquilhada em uma cama. Mesmo que ele não fugisse ao saber, o que certamente faria, eu não quero. Não quero mais problemas, nem causar problema pra ninguém.
- E se ele gostou mesmo de você?
- Eva, ele é jovem, atleta, rico, mulherengo. Fui só mais uma paquera. Ele teria pena de mim se me visse de pé.
- Você não sabe.
- Eu sei. Por isso, vamos parar de falar nele. Já passou. Por favor.
- Tudo bem.
Eva tentou puxar outro assunto e eu tentei participar, mas passei o resto da noite com um aperto no peito e uma infantil vontade de chorar. Eu precisava esquecer Valentim Mattos. E logo.


Já tinha umas duas semanas que Daniela estava fazendo ginástica na academia nova e ocasionalmente tecia comentários sobre ele: que era ótimo professor, era filho de empresários, que passava os finais de semana surfando, fazendo rapel ou voando de asa delta, que às vezes o pessoal da academia ia com ele e ela estava pensando em ir também, que várias alunas davam em cima dele, etc. Para mim era difícil esquecê-lo, com ela sempre falando dele.
 Eu sentia sua animação e pensava que era questão de tempo até Daniela sair com ele. E foi sem querer que eu soube que isso estava acontecendo. Eu tinha saído para ir a uma consulta com meu médico e quando cheguei não tinha ninguém em casa. Fui cansada para meu quarto, tomei banho e depois descansei um pouco as pernas na cama.
Depois de algum tempo, me dirigi para a sala, mas parei no corredor ao escutar Eva e Daniela conversando, falando meu nome e o do Valentim. Eva dizia:
- A Angelina pode ficar magoada.
- Que nada! Eva, você ouviu ela dizendo que nem liga! Olha, não posso atrasar meu lado por causa dela! Estou a fim dele. Muito a fim e agora que ele me deu bola não vou dispensar por causa da Angelina, que não é nada dele!
- Daniela...
- Eva, você o viu. O cara é lindo de morrer, sensual, um gato, super legal e, se você quer saber, é demais na cama. A Aninha estava certa.
- Você transou com ele?
- Ontem. E amanhã vamos sair de novo. Gosto muito da Angelina, mas ele nunca mais falou dela. E ela não quer nada com ele. Por que eu devo me incomodar?
- Droga, ela gostou dele, Daniela!
- E eu também. Só que agora ela é passado e ele está comigo. Ponto final! Lamento por ela, tenho pena que seja doente, mas Valentim é cheio de saúde e energia, Eva. Ela fez bem em não arriscar. Não acompanharia o pique dele e ele se sentiria mal, pois é um cara legal. Talvez só ficasse com ela por pena.
- Daniela!
- É verdade! Eu sou jovem, saudável e vou te falar, estou louca por ele. Nada nesse mundo vai me fazer desistir. Vou usar tudo o que tenho para conquistar Valentim.
Sem aguentar ouvir mais, movi minhas muletas em silêncio de volta para o quarto. Fechei a porta e caí na cama. Fechei os olhos e tentei controlar minha dor e minha decepção, mas não consegui. Enfiei o rosto no travesseiro e comecei a chorar.
Durante a semana ficou claro que Daniela estava saindo com Valentim. Ela não disse claramente para mim, mas também não escondeu. Andava radiante, feliz e só falava nele. No sábado foi voar de asa delta com ele e no domingo foram para a praia com uns amigos. Eu fingia que nada daquilo me incomodava, mas por dentro estava arrasada, pensando que eu não podia fazer nada daquilo. Minhas pernas não me permitiam nem andar.
Para piorar a situação, como se não bastasse a dor emocional, o ciúme e a angústia, minhas dores físicas começaram a retornar. Minhas pernas doíam e também as articulações dos meus pulsos, principalmente quando eu trabalhava digitando as traduções da editora. Sabia que mais uma de minhas crises se aproximava e evitava me encher de remédios para dor por enquanto, pois logo eu teria que viver a base deles. Tentava conviver com a dor e me forçava a trabalhar todo dia, adiantando o máximo que eu pudesse das traduções.
A semana se arrastou assim. Eva, que me conhecia bem, notou que as dores estavam retornando e ficou toda preocupada. Não queria que eu fizesse nada em casa, insistia em fazer massagens em mim todas as noites e me tratava com tantos mimos que eu até ria dela e a chamava de mamãe.
Na sexta-feira à noite, passei linimento nas pernas, pus uma velha calça de malha larga e preta, uma camiseta azul e prendi o cabelo num rabo-de-cavalo. Deitei no sofá e fiquei vendo televisão, cansada, pois aquele fora um dia duro. Minhas pernas doeram todo o tempo e meus pulsos latejaram até eu não aguentar mais e interromper as traduções. Tive que tomar um remédio para dor e agora me sentia um tanto sonolenta, sozinha no apartamento.
Mal notei a porta abrindo, até ver Daniela no limiar da entrada da sala, me olhando de maneira esquisita.
- Oi. – Sorri e bocejei.
- Oi, Angelina. Temos visita hoje.
- Ah, é?
- É o Valentim.
Mal ela falou e ele surgiu ao seu lado. Tomei um susto tão grande, que parecia ter levado um murro na boca do estômago. Fiquei imóvel, sem ar, sem chão. Meu coração batia tão rápido que parecia prestes a sair do meu peito.
Quando os olhos dele, tão azuis, tão escuros, fitaram os meus, fui envolvida por uma miríade de sentimentos: saudade, angústia, desejo, dor, medo e muitos outros. Ele estava ainda mais bonito, como se fosse possível, mais bronzeado, com seus cabelos negros caindo desgovernados por sua testa. Usava jeans e blusa preta, que deixava seus olhos ainda mais azuis.
Tentando disfarçar como ele me abalava, sentei no sofá de vagar, as pernas ainda esticadas, engolindo a dor e a tristeza pungente que brotou dentro de mim.
- Não preciso apresentar vocês. Olha, Angelina, vou viajar com o Valentim para a Arraial do Cabo hoje e tenho que arrumar minha bolsa correndo. Fique à vontade, Valentim, volto logo.
- Tudo bem. Oi, Angelina. – Aproximou-se sem tirar os olhos dos meus.
- Oi.
Daniela sumiu na direção do seu quarto e eu terminei de me sentar, pensando que era previsível que ele acabasse aparecendo por ali. Mas Daniela poderia ter me avisado. Eu não teria sido pega de surpresa. Olhei de soslaio para minhas muletas, perto do sofá onde eu estava. Apontei para o sofá em frente:
- Sente-se.
- Obrigado. – Ele sentou. Olhava diretamente para mim. Franziu o cenho e indagou: - Você está bem?
- Estou.
Mas o olhar dele era avaliador, como se pudesse ver a dor em meu semblante. Então seus olhos fitaram as muletas. Quando voltou a me olhar, me recostei no sofá, sabendo que a farsa terminara.
- Você se machucou?
- Não.
- As muletas são suas?
- São. – Seus olhos azuis eram penetrantes. Ele esperava uma resposta melhor. Criando coragem, falei: - Eu ando de muletas.
- Desde quando?
- Há dez anos.
Valentim ficou em silêncio, sério. Seu olhar desceu por minhas pernas, mas eu sabia que elas pareciam normais assim, sob a calça de malha. Não suportei o silêncio e falei:
- Tenho artrite desde os catorze anos e ela vai piorando com o tempo. Às vezes uso também cadeira de rodas, em momentos de crise.
- Você está com dor.
Fiquei surpresa. Ele mal me conhecia. Como podia saber?
- Está melhor. – Sorri, afastando a franja do cabelo que caía em meus olhos. – Já tomei o remédio.
- Não é perigoso ficar sozinha?
- Não. E logo a Eva vai chegar.
- E o seu namorado?
Fui pega de surpresa. Disfarcei, sem saber o que dizer.
- Não há nenhum namorado, não é? O que impediu você, naquele restaurante, foi sua doença.
Valentim falou de maneira tão direta, tão segura, que corei de embaraço, sem saber como mentir mais.
- Por que você não me falou, Angelina?
- Isso não importa. – Tentei sorrir para ele e amenizar o clima tenso. – Foi melhor assim, pra todo mundo.
- Não para mim.
Não suportei seu olhar duro, penetrante. Ele estava chateado, talvez se sentindo enganado. Desviei os olhos e cruzei as mãos no colo, sem saber o que dizer.
- Você mentiu, não foi sincera.
- Olha,Valentim, só não quis causar mal estar. Desculpe.
- Você não podia ter decidido por mim.
- Eu decidi por mim. Não queria falar que sou aleijada. É um direito meu! – Falei, encarando-o com certa mágoa. – O que você faria? Ficaria com pena?
- Não tenho pena de você. E você não é aleijada!
- Sou! E vou ficar cada vez pior! – Respirei fundo, exausta emocionalmente, meio grogue devido ao remédio.
- Você está pálida. Está passando mal? – A preocupação dele era evidente em seu semblante. Me olhava de um jeito intenso, como se pudesse ver como eu me sentia, como se importasse comigo de verdade.
- Estou bem. Esse remédio me deixa meio descontrolada. – Respirei fundo e recostei-me no sofá, cansada, abalada demais com ele ali, tão perto. Lembrei que agora ele era de Daniela. O que sentimos ao nos conhecer não vinha mais ao caso. – Fico feliz que você esteja com Daniela. Ela é muito legal.
- Fica mesmo, Angelina?
- Claro que sim. – Desviei o olhar. – Desculpe, estou sendo mal educada. Você quer alguma coisa para beber?
- Não, obrigado.
Ele estava visivelmente tenso. E nem por um momento tirava os olhos de mim. Pensei desesperadamente num assunto neutro, mas estava afetada demais por ele e pelo remédio para pensar com clareza.
- A sua doença não tem cura?
- Não. É do tipo mais raro. Tenho que conviver com ela.
- E ela pode piorar?
- Ela vai piorar com o tempo. É degenerativa.
Fitei-o, esperando pena em seu semblante, mas estava sério, com o cenho franzido. Era impossível saber o que ele pensava, mas parecia estar com raiva. Incomodada, perguntei:
- Você está com raiva de mim?
- Não.
Não suportei olhar muito para ele. Era o homem que mais havia mexido comigo na vida, justo quando eu já havia me conformado em não me envolver nunca com alguém. Mas descobri que os sentimentos não dependiam da nossa vontade. Fugi de seus olhos, de sua presença, do que ele me fazia sentir.
- E aí, vamos? – Daniela voltou, levando duas bolsas, uma em cada mão. Olhou meio desconfiada para mim e depois sorriu para Valentim: - Fui bem rápida. Você disse que estava com pressa.
- Certo. – Ele se levantou.
- Angelina, avise à Eva que só volto no domingo. Qualquer coisa, podem ligar pro meu celular.
- Tudo bem.
- Você vai ficar bem? – Valentim perguntou, me olhando.
- Vou. – Sorri. – Divirtam-se.
- Pode deixar. Cuide-se, querida. – Daniela foi se encaminhando para a porta.
- Tchau, Angelina. – Ele falou, muito sério.
- Tchau.
Algo parecia impedi-lo de sair. Valentim parecia querer falar mais alguma coisa. Seu olhar era penetrante, preocupado, direto para mim.
- Valentim? – Chamou Daniela.
Por fim, ele saiu com ela. Depois que a porta fechou, fiquei imóvel olhando para a televisão, sem prestar atenção no que passava. Só pensava nele ali, olhando para mim. Vendo pela primeira vez quem eu realmente era.
Eu me recusei a chorar. Sim, eu gostava dele. Não conseguia esquecê-lo. Mas ele não era pra mim. Era para mulheres lindas e perfeitas como Daniela. Devagar, comecei a me deitar no sofá.


Eu piorei muito nos dias que se seguiram.  Minhas pernas doíam sem parar, dia e noite. A dor espalhava-se por todas as articulações e eu não tinha força nos braços ou nas pernas. Passei a tomar os remédios de maneira contínua, a aceitar as massagens de Eva todas as noites e quase não poder mais trabalhar. Felizmente eu estava com as traduções adiantadas. Passava a maior parte do tempo na cama e só me locomovia com a cadeira de rodas.
Eva tinha me levado ao médico e ele disse que se a crise não melhorasse eu precisaria me internar por uns tempos. Havia sempre o risco da doença ter se agravado mais e afetado outras áreas, inclusive os órgão internos. Eva ficava preocupada, com medo que eu passasse mal quando ela ou Daniela estivessem no trabalho.
Depois de uma semana padecendo, mais magra por não conseguir comer direito, pálida de tanta dor, eu já estava começando a pensar que a crise estava se estendendo demais e que talvez fosse melhor mesmo eu me internar. Na sexta-feira à noite as dores nas pernas e pelo corpo estavam insuportáveis e nenhum remédio dava jeito.
Eva tinha chegado do trabalho, me ajudado a tomar banho e vestir um pijama rosa de calça e camiseta. Antes tinha feito massagem no corpo e eu cheirava a linimento. Estava dopada de remédios, mas a dor contínua não me deixava dormir. Ela estava muito preocupada e separava uma bolsa com meus documentos para a internação e uma muda de roupas.
- Lina, vou ligar para o seu médico e avisar que vamos levar você para o hospital. – Disse Eva, pegando meu celular e procurando o número do médico.
Eu estava grogue, cheia de dor na cama. Não tive forças para falar nada. Quanto mais quieta eu ficasse, menos eu sofreria.
- Eva, o que houve? Ela piorou? – Daniela entrou no quarto.
- Muito. As dores estão insuportáveis. Preciso de sua ajuda para colocá-la na cadeira de rodas e depois no carro.
- É que estou pronta para sair. Valentim está na sala me esperando.
- Valentim está aqui?
Fechei os olhos, ouvindo-as. Apesar das dores, a imagem dele veio clara na minha mente, os seus olhos azuis tão escuros me fitando... Não, eu não queria que ele me visse daquela maneira.
- Vou falar com ele. – Disse Eva.
- Falar o quê?
- Ele é homem e forte. Pode nos ajudar com Angelina, para que ela não sinta tanta dor.
- Não. – Murmurei, mas elas não ouviram. Ou não ligaram. Eva saiu rápido do quarto, mas ainda ouvi Daniela dizer:
- Eva, não é boa ideia. Nós temos um compromisso e ...
As vozes se afastaram. Desesperada, pensei em Valentim entrando ali no quarto e me vendo daquele jeito na cama. Eu não queria aquilo.
Tentei me levantar devagar, mas as dores eram atrozes, como se um rolo enorme de arame farpado estivesse enrolado sobre o meu corpo. Todo lugar doía, meus membros estavam fracos como os de um bebê. Fitei a cadeira de rodas ao lado da cama, tão perto, mas tão difícil de alcançar. Procurei me arrastar até ela, mas o esforço me fez suar frio e gemer descontroladamente.
- Angelina, o que você está fazendo? – Eva correu até mim. – Calma, meu bem. Fique quietinha. O Valentim está aqui e vai te ajudar.
- Não. – Choraminguei baixo, não querendo olhar para ele, saber que ele presenciava o meu estado.
- Ela está com muita dor e sem forças. Temos que colocá-la na cadeira de rodas e levá-la para o carro. – Disse Eva.
- Angelina. – A voz dele, grossa, baixa, preocupada, chegou até meu ouvido. Pude sentir muito forte a sua presença e, sem que eu esperasse, ele afastou o cabelo de minha testa suada, com carinho. – Vou pegar você com cuidado. Diga se eu te machucar.
- Não. – Consegui falar e abrir os olhos pesados. – Posso ir sozinha.
Encontrei seus olhos lindos, fixos em mim. Estavam preocupados, ternos, cheios de... Pena. Fechei os meus, nãoaguentando ver aquilo.
- Vem aqui. Devagar.
Apesar de tudo, senti muito bem seu cheiro delicioso e seus braços fortes quando ele me pegou no colo com toda delicadeza. A dor veio fulminante e mal pude respirar quando ele me levantou e me encostou em seu peito. Lágrimas sem controle desceram por meus olhos fechados. Senti os últimos resquícios de força me abandonarem.
- Calma, Angelina. Fique quietinha. – Falou baixo, perto do meu cabelo, não se movendo para que eu me acomodasse em seu colo.
Com a cabeça sobre o seu peito, senti aos poucos a dor diminuir. O calor que fluía dele, a força medida dos seus braços, me confortaram.
- A cadeira está ali. – Disse Daniela.
- Se eu mexer nela, vai sentir mais dor. – Valentim falou. – Abra a porta, Eva. Vou levá-la assim até o carro.
- Mas ela é pesada! – Retrucou Daniela.
- Não pesa nada. – Ele murmurou.
- Vamos. Vou levar a bolsa. – Disse Eva, se adiantando.
Quando Valentim começou a andar comigo, senti punhaladas de dor pelo corpo. Ele murmurou algo baixinho contra meu cabelo, tentando me confortar, segurando-me firme contra seu peito, todo cuidadoso.
Não abri os olhos, tentando me concentrar nele, em seu cheiro, em sua voz, em seu calor. A dor era insuportável, mas nos braços dele eu sentia que poderia aguentar qualquer coisa.
Não sei bem como saímos do apartamento, entramos no elevador e chegamos à garagem. Estava tonta demais para prestar atenção à discussão entre Valentim, Eva e Daniela enquanto isso, mas por fim compreendi que Valentim tinha um carro maior e se ofereceu para me levar ao hospital. Eu poderia ir deitada no banco detrás e Eva me segurar para que eu não sentisse tanta dor durante a viagem.
Foi o que aconteceu. Eva sentou atrás e, com toda delicadeza de que era capaz, ele me depositou deitada no banco, com a cabeça no colo dela.
- Isso, boa menina. – Ele murmurava, enquanto eu lutava para resistir à dor, afastando meu cabelo suado da testa.
A viagem foi uma tortura, pois qualquer movimento era como uma punhalada. Daniela falava algo com ele na frente do carro, parecendo irritada. As palavras eram indecifráveis para mim.
 Quando chegamos ao hospital, ele saiu rápido atrás de uma maca. Foi um novo sofrimento enquanto Valentim e os enfermeiros me passavam para a maca. Ouvi a voz dele, a de Eva, senti a maca sendo empurrada pra longe deles, reconheci a voz do meu médico.
Ele falou comigo, explicou algo, mas só entendi a palavra injeção. Por fim, fui perdendo a razão e caí no escuro reconfortante da inconsciência. 


Fiquei internada por dois dias, a maior parte do tempo dormindo devido aos fortes medicamentos. Lembro apenas de detalhes, quando fizeram exames em mim, do médico perguntando como eu estava, de Eva ao meu lado. Ela falou que Valentim e Daniela tinham ido me visitar e ela também, mas que eu estava inconsciente. Felizmente a crise estava passando e eu teria alta na manhã seguinte. Ela e o médico também me explicaram que a doença não avançara, segundo constatara o exame, o que era uma boa notícia.
Eva foi me buscar no sábado de manhã. Ela havia levado minha cadeira de rodas, pois eu ainda estava fraca e dolorida para usar as muletas. Agradeci a ela pelo cuidado e ela me abraçou e beijou com carinho, dizendo pra eu deixar de ser boba.
No apartamento, ela me ajudou a tomar banho, a vestir uma camiseta verde fresquinha e calça branca de malha, bem confortável. Com o cabelo molhado e sentada confortavelmente sobre almofadas no sofá, fiquei vendo televisão enquanto Eva insistiu em fazer o almoço sozinha.
Almoçamos sozinhas e perguntei por Daniela.
- Parece que ela foi para a casa de praia de uma amiga.
- Pensei que ela estivesse com o Valentim.
Eva ergueu os olhos pra mim, enquanto cortava um pedaço de bife em seu prato.
- Eles não estão mais juntos.
- Não? – Fiquei surpresa. Não quis pensar por que meu coração acelerou de repente.
- Foi o Valentim quem não quis mais. E se quer saber, achei muito bem feito. Daniela às vezes é um saco. De que adianta ser tão bonita se é tão egoísta?
- Nunca vi você falar assim, Eva. O que aconteceu?
- Olha, vou te falar porque você vai acabar sabendo. Mas não quero que você fique se sentindo culpada.
Parei de comer e a fitei, preocupada.
- No dia que você passou mal, Daniela e Valentim iam sair. Estavam arrumados e ele passou aqui para buscá-la. Pedi que ele ajudasse a pôr você na cadeira de rodas, mas você estava com dores demais e ele te levou no colo até o carro.
- Eu me lembro.
- Pois é. Também insistiu em nos levar para o hospital. Ele foi muito legal. Mas a Daniela não gostou. Ficou irritada e reclamando. Minha vontade foi a de xingá-la!
- Eva...
- Não, deixa eu terminar. Carregaram você para dentro e Valentim quis ficar e esperar notícias, comigo. Aí a Daniela reclamou de novo. Você acredita que ela só pensava que ia chegar atrasada à maldita festa? Isso é ser amiga? – Eva bufou. – Ele ficou lá até garantirem que você estava bem e dormindo. Depois fez questão de me trazer em casa e, no carro, disse a Daniela que já estava tarde para tal festa. Aí o mau gênio dela veio à tona. Eles discutiram feio.
Eva balançou a cabeça. Depois acabou sorrindo.
- Valentim não deu mole pra ela. Falou que odiava pessoas egoístas e que era melhor pararem por ali. Daniela ficou mansinha na hora, mas já era tarde. Ele deixou claro que não queria mais nada com ela. Nos deixou aqui e foi embora.
- E a Daniela?
- Chorou, deu uma de vítima, mas também falei umas verdades pra ela. E eles terminaram mesmo. Valentim foi te ver no hospital e me disse que não quer mais nada com ela.
- Que chato, Eva. Sei que Daniela às vezes é difícil, mas...
- Difícil? Olha, Lina, sempre soube que vocês não eram amigas. Mas ela podia ao menos ter se preocupado! Você estava cheia de dor, sofrendo demais!
- Mas eles não podiam ter brigado por isso. Sinto que...
- Você não teve culpa. Valentim é legal e só quis ajudar. Se Daniela fosse só um pouquinho humana, faria o mesmo.
- É o jeito dela.
- É, mas ninguém é obrigado a aturar.
Remexi a comida, um pouco abalada com tudo que Eva dissera. Não podia negar que o comportamento de Daniela me magoara. Também não torci para que ela e Valentim se separassem. Mas o fato dele ter se preocupado comigo me deu uma estranha euforia. Mesmo que eu tentasse controlá-la.
- Você gosta dele, não é?
Olhei para Eva na hora, corando sem querer.
- Claro. Ainda mais agora, depois dele ter me ajudado.
- Ele ficou muito preocupado, Lina. Foi muito carinhoso com você.
- Eu sei. Preciso agradecer.
- Ele te olhava de um jeito...
- Que jeito?
- Um jeito especial. Acho que Daniela também notou. Talvez por isso ela tenha se descontrolado. Por ciúmes.
- Eva, Valentim só foi legal comigo. Seria da mesma maneira com qualquer pessoa.
- Da mesma maneira acho que não. Ele ficou desesperado quando viu você sofrendo tanto.
- Pare com isso, Eva. – Não quis estender o assunto, muito perturbada. – Ele deve ter tido pena de mim.
- E daí? 
Parei de falar, para não prolongar o assunto. Não queria pensar em tudo aquilo, ter esperanças vãs. Valentim era tudo que se podia desejar em um homem e eu uma garota simples, doente, sem nada a oferecer. Tinha me visto em meus piores momentos. Era óbvio que nunca ia querer nada comigo. E que não daríamos certo. Pena era tudo que teria dele e repeti isso para mim mesma, como um mantra. Aprendi com a vida que ser realista era a melhor coisa para não me decepcionar.

Ele veio me ver naquela tarde. No fundo eu sabia que viria, pelo menos para saber como eu estava. E já me preparava psicologicamente para isso. Tinha tudo planejado. Eu sorriria, agradeceria com muita sinceridade tudo o que fez por mim, seria educada e segura. E quando fosse embora, eu continuaria sorrindo, fingindo estar tudo bem, mesmo sabendo que possivelmente seria a última vez que colocaria meus olhos nele. Mas teria sua imagem, suas lembranças e seu olhar sempre comigo.
Uma coisa a mulher que jogava búzios não havia errado. O amor entrou na minha vida no dia dos namorados, o próprio Valentim. Não sabia definir tudo o que me fazia sentir, mas tinha certeza de que era para sempre. Que nunca o esqueceria. E talvez nunca me sentisse assim novamente.
Eva abriu a porta quando ele chegou e eu estava preparada. Ou pensei que estivesse. Bastou bater vê-lo, fitar seus belíssimos olhos violetas, e tudo dentro de mim mudou, se revolveu, ganhou vida. Pulsei, exaltei, fraquejei, latejei, desejei. Tudo tão violentamente que me senti golpeada por sua presença, arrebatada por sentimentos vorazes e devoradores, mais fortes que qualquer razão ou controle.
Enquanto ele entrava e Eva inventava uma desculpa para nos deixar a sós, se afastando, eu tentei fingir, sorrir, agir normalmente. Mas fiquei lá, sentada no sofá, só olhando para ele, abismada com a maneira como me sentia, completamente fora de mim. Tive vontade de chorar, de implorar, de gritar contra a injustiça de tudo aquilo. E só consegui sentir, lamentar, desejar.
Valentim não disse nada. Era como se uma energia forte e pulsante nos conectasse, nos atraísse, muito além do que podíamos entender, muito além do corpo. E não era só de mim, era dele também, tão intensa e golpeante que qualquer pensamento racional deixava de existir.
Não sei o que aconteceu. Ele não me cumprimentou, não me perguntou como eu estava, não disse nada. Veio bem perto e se sentou ao meu lado no sofá, o tempo todo seus olhos nos meus, cheios de sentimentos vorazes e dominantes. Sem uma palavra e com toda delicadeza, me tocou. Pegou-me sob as coxas e as costas e abri a boca, surpresa, coração disparado, mas sem condições de fazer nada mais do que deixar e ir enquanto me colocava sentada sobre seu colo, como se eu não pesasse nada, como se aquilo fosse o certo a fazer.
Acariciou meus cabelos soltos. Seus olhos percorreram meu rosto até meus lábios, com tanto desejo, tanta emoção, que quase chorei. Senti os olhos marejarem, sem poder acreditar, achando que sonhava, que me iludia. Então me trouxe mais para perto de si, acomodando-me contra seu peito largo e musculoso, seus braços em volta de mim, uma de suas mãos se infiltrando entre os cabelos na minha nuca, a outra em minha cintura direto na pele sob a camiseta curta do pijama.
Fui arrebatada na hora e senti tudo com extrema intensidade: seu toque, seu olhar, seu cheiro delicioso, suas coxas duras e volume grosso do sexo onde eu estava acomodada. Estremeci, mal consegui respirar, ali segura e amparada em seu colo, em suas mãos, sob o forte impacto do seu olhar. E então Valentim disse baixinho:
- Não adianta mais fugir. Eu vim para ficar.
Eu sabia, em algum canto da minha mente embotada, que tinha que negar, pensar na minha realidade, me dar conta que aquilo nunca daria certo. Mas a esperança, aquele sentimento que existia independente de qualquer vontade, era mais forte que tudo. Mergulhei de vez em seus olhos azuis escuros que me diziam que eu era dele, que tudo daria certo, que ali era meu lugar. Lágrimas escorreram dos meus olhos e pensei que não havia mais escapatória para mim. Eu o amava.
Valentim fitou minhas lágrimas e seu olhar ficou mais intenso e escuro, mais decidido. E com a mão firme em minha nuca, inclinou o rosto e aproximou os lábios dos meus. Quando os senti, eu morri e nasci. Eu vivi pela primeira vez. Fechei os olhos e me entreguei, pois já era irremediavelmente dele.
Beijou-me na boca com ternura, ao mesmo tempo tão profundo, tão íntimo, que esqueci o mundo todo. Era só ele ali, seu corpo, seu cheiro, seu gosto. Ah, e que gosto! Que língua deliciosa lambendo a minha, conhecendo cada recanto da minha boca, tomando-a toda para si.
Eu ergui a mão e a enfiei em seu cabelo, gemi baixinho, beijei de volta com o mesmo desejo, dando-me toda. Não paramos de nos beijar e saborear. E quanto mais dávamos, mais queríamos. E então eu soube que estava perdida. Aquele dia dos namorados não trouxe só o amor para a minha vida. Trouxe a minha própria vida de volta. E pela primeira vez ousei ter esperanças. E amar.


Feliz Dia dos Namorados!
Este conto faz parte de um livro inédito que estou escrevendo e foi adaptado especialmente para este dia. Afinal, o que há melhor na vida do que o amor?
Não importa raça, cor, credo, preferência ou deficiências;
Quando o amor vem, ele resolve e ilumina tudo.
Viva o amor!
Beijos carinhosos,

Nana Pauvolih.


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